Memória, de Carlos Drummond de Andrade

Memória

Amar o perdido
deixa confundido
este coraçao.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangiveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.

À Espera do Fim, Jorge Palma

Posted by Luis Ferreira | Posted in | Posted on quinta-feira, fevereiro 04, 2010

Porque andas confusa, porque somos parecidos,
porque procuramos "uma mao miuda que me assentava como uma luva"




À Espera do Fim

Vou andando por ai
Sobrevivendo á bebedeira e ao comprimido
Vou dizendo sim á engrenagem
E ando muito deprimido
É dificil encontrar quem o não esteja
Quando o sistema nos consome e aleija
Trincamos sempre o caroço
Mas já não saboreamos a cereja

Já houve tempos em que eu
Tinha tudo não tendo quase nada
Quando dormia ao relento
Ouvindo o vento beijar a geada
Fazia o meu manjar com pão e uva
Fazia o meu caminho ao sol ou á chuva
Ao encontro da mão miúda
Que me assentava como uma luva

Se ainda me queres vender
Se ainda me queres negociar
Isso já pouco me interessa
Perdemos o gosto de viver
Eu a obedecer e tu a mandar
Os dois na mesma triste peça
Os dois á espera do fim

Tu tens furtuna e eu não
Podes comer salmão e eu só peixe miúdo
Mas temos em comum o facto de ambos vermos
A vida por um canudo
Invertemos a ordem dos factores
Pusemos números á frente de amores
E vemos sempre a preto e branco o programa
Que afinal é a cores


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